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sábado, 18 de abril de 2009

135

135.
Número que abre muitas portas... Número que fecha também.
Ali tinha ficado o seu cheiro, o seu suor, a presença marcante dos seus passos em direção a ...
Tinha ficado seu sorriso, sua performance, seu desequilibrio... Minha loucura!
Bateu a porta e mais outra. Ainda não consegui decodificar o que se passou em curtos instantes na minha mente atordoada por beijos e súplicas enquanto saia daquele lugar.
"Aurora da minha vida que os anos não trazem mais..."


- Os anos não trarão mais! Pensava convicta de uma certeza duvidosa.

- Você prefere que eu a leve pra jantar ou pra dançar?

- O quê?

- Você prefere que eu a leve pro Ibura ou pra Caxangá?

- Ah...!
Dizem que nossa mente se prepara pro que se deseja ouvir...

- Que idiota eu sou! Esbravejava para si mesma.

- E ai?

- Caxangá mesmo. Acho que minha costureira não está em casa!!!


Gargalharam juntos.


- Tudo bem. Mas, antes vou no posto botar gasolina no carro. Você se importa?

- Imagine!


A esta altura estava congelada com o que eu tinha acabado de fazer. Aliás, congelada é pouco! Pensava nos motivos, nos argumentos... Então, pensava nos beijos, nas juras ao "pé do ouvido", nas mordidas...
Pensava principalmente no 135. Tinha ficado ali. Tudo estava ali!
Parou o carro e foi comprar um coke ...

- Volto logo. Você quer alguma coisa?

- Não. Obrigada.

- Vê se sobrevive ai sem mim...

E deu as costas num sarcasmo que me deixou completamente desarmada.

Fitei-o.

Fitei-o dentro e fora de mim.

- Aquilo tudo não aconteceria por acaso. Gritava-me a afirmativa no peito.

E tudo: a frase que me desarticulou, a caminhada até a conveniência, a noite sem estrelas que o permeava a face, os gestos, a forma como conduziu a lata de coke nas mãos, a atenção segura dada às pessoas do estabelecimento, as chaves de volta às mãos, o "Muito obrigado!", que revelava-me suas boas maneiras e me fazia enxergá-lo como um gentleman, a lua que enfeitiça-me ao olhar-lhe nos olhos... agora me fazia pensar não nos motivos, no fato que causou tamanho "desarrume", mas naqueles que me fariam sair daquele carro e desistir daquela noite.


- E ai? Sobreviveu?

Ria de um jeito tão particular que me confundia os sentidos.

Abri um sorriso e minha alma tocou na dele.

- Ainda acho que consigo...
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- Resultado: passei toda a minha vida amando este homem!

- Poxa...! E o fim da história? O que aconteceu depois disto? Vocês casaram?


Neste momento o motorista aparece e pergunta se ela estava pronta.


- Sim. Respondeu ligeiramente.


- Ah não! Vó... Me conta! Me conta!

- Quem sabe um dia?

- Poxa... Por favor!

- Oh, menina... Deixa disso! Um dia eu conto!


E quando ia atravessando a porta, ainda pôde ouvir sua neta indagar:

- Pelo menos diga se a senhora conseguiu sobreviver sem ele...


Olhou o motorista.
Um senhor de uns 67 anos e de esperanças quase falidas, marcado pelos anos de trabalho, pelas armaguras da vida e pelo desprezo do abandono (talvez!)...


E, carregando todo o fôlego imaginável (e cabível de emoção), sussurrou numa voz doce de senhora:

- Acho que ainda consigo...



[Contos da sala de improvisar. By Tali Mota.]
Obs: As partes destacadas de preto são marcações do narrador.