
Já sou alfabetizada e mais do que ninguém sei que a palavra “paixão” não corresponde a um verbo para poder ser conjugado no pretérito imperfeito. É um substantivo dito como abstrato e para mim, de fato, é! Mais do que isto: é o pretérito imperfeito da minha vida! Causa de conflitos internos, de reflexões acerca do que sinto, de levar à risca o que meu amigo Sócrates disse uma vez, talvez acabando de viver uma paixão, “Conhece-te a ti mesmo”; causa que me rende bons textos.
Estou vivendo mais uma paixão!
E sinto que, mais uma vez, ela não será PERFEITA, embora os acontecimentos estejam me provando o contrário. Planejar algo que nunca poderá ser vivido intensamente não é uma boa forma de viver a vida...
Eu não vivo intensamente!
DE VEZ EM QUANDO, claro!
Pra mim, não!
Mas, o que fazer com essa minha paixão?
O que fazer com toda esta loucura?
Quanto vale um devaneio?
Quanto vale um devaneio?
Se é que é devaneio!!!
Não sei suportar o que é viver algo que nunca está acabado e que nunca irá ter fim!
Não dá pra agüentar olhar pra ele e não poder dizer que adoro quando ele inventa aqueles truques que deixa todo mundo rindo...
Não dá pra ficar feliz quando ele me diz “Então, gatinha, dorme bem e até amanhã!”, quando o que eu queria era passar a noite toda com ele, nem que fosse só ouvindo a sua voz...
Não dá pra ficar de frente pra ele e ter que pôr em prática o tal do domínio próprio quando minha vontade era de agarrá-lo e dizer que sinto falta quando o mundo só parece abrigar nós dois na imensidão dos nossos desejos impulsivos e sufocantes, na imensidão dos meus olhos quando encontra os dele, sem jeito...
Não dá pra saber da vida dele e não poder participar nem contribuir em nada...
É difícil manter a compostura, manter-me sempre séria quando o que meu desejo mais pede é a companhia de seu sorriso...
É de morrer ficar esperando ele chegar com aquele cheiro que parece que ele preparou especialmente em minha homenagem e ter de me contentar em dizer apenas “... E você, cheiroso!!!”
É duro ouvir as palavras que ele me profere quando quer me advertir que é melhor que façamos isto ou aquilo quando me dá vontade de jogar tudo pro ar e dizer “Sabe de uma coisa? Que o mundo se dane!!!” E como diz a música de Exaltasamba “Eu não quero nem saber... Quero amar você!!!”
É de doer na alma a simples ideia de que ele pode, um dia, ir embora e nunca mais voltar alegando que já deu... Que assim é melhor pra nós dois! Que foi bom enquanto durou e que eu preciso seguir a minha vida...
Seguir minha vida mais uma vez...
***
E assim o pretérito da minha vida continuaria IMPERFEITO! Sem previsão para término, preso ao passado... A eterna dúvida que compete às reticências, que se solidifica nas desinências modo-temporais dos verbos do pretérito imperfeito e que coloca a minha vida de volta à estaca 0. Do mesmo ponto onde outrora fora a largada.
As paixões devem constituir numa espécie de treino. Devem ter como objetivo identificar até onde o ser consegue se equilibrar e até que ponto não consegue mais...
Que elas digam em que pé estou e que me preparem pro imperfeito que sempre me aguarda!
E, já que nada é PERFEITO...
Que eu viva a imperfeição de sentimentos tão perfeitos, mestre do divino compasso das orquestras!!!
Minhas e outras histórias. By Tali Mota.
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